Mudanças climáticas e seus impactos na saúde das populações

Joilda Silva Nery e Ismael Henrique da Silveira

Foto: WWF

As mudanças climáticas representam um dos principais riscos à sobrevivência de várias espécies e pode impactar a saúde e o bem-estar humano por diferentes vias (IPCC AR6WGII). São inúmeros os impactos das mudanças climáticas na saúde e incluem o aumento de inúmeras doenças infecciosas, acidentes e lesões, doenças crônicas, transtornos mentais, problemas relacionados à gravidez e ao parto, desnutrição, insegurança alimentar, violências etc. (ROCQUE et al., 2021). Esses impactos podem ocorrer diretamente ou indiretamente. Os impactos diretos são aqueles causados por eventos extremos como secas, tempestades, inundações, incêndios florestais, ondas de calor, etc. Já os impactos indiretos são mediados por sistemas naturais e humanos, e incluem aqueles relacionados às transformações ecológicas e de uso da terra, mudanças na distribuição de vetores de doenças, perdas na agricultura e plantações, deslocamentos forçados, entre outros (WATTS et al., 2015).

As mudanças climáticas, muitas vezes associadas à algo no futuro, já estão em curso e, nesse sentido os impactos citados acima já estão ocorrendo e tendem a ser exacerbados no futuro (ROMANELLO et al., 2022). Cabe ressaltar que, embora as mudanças climáticas representem uma ameaça global, pessoas em situação de vulnerabilidade têm sido as mais afetadas no presente e também serão no futuro. Nesse sentido populações de menor renda, expostas a discriminações e racismo, populações em situação de rua, migrantes e refugiados estão mais sujeitos aos impactos das mudanças climáticas, devido à falta de saneamento básico, políticas e recursos públicos de saúde, infraestrutura e refrigeração residencial etc. (IPCC, 2022).

O sexto relatório sobre mudanças climáticas do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC, 2022) destaca a crescente preocupação com os efeitos das mudanças climáticas nos movimentos populacionais, especificamente refugiados e migrantes. Segundo o relatório, as alterações ambientais decorrentes do aquecimento global estão impulsionando deslocamentos em larga escala. Estima-se que, até 2050, centenas de milhões de pessoas sejam deslocadas devido a eventos climáticos extremos, como tempestades, inundações e secas prolongadas.

A falta de acesso a recursos básicos, como água potável e alimentos, também é um fator que impulsiona as migrações forçadas. Além disso, o relatório enfatiza que as comunidades vulneráveis, como populações costeiras e comunidades rurais dependentes da agricultura, são particularmente afetadas. O aumento do nível do mar e a degradação dos ecossistemas agrícolas ameaçam a segurança alimentar e a subsistência dessas populações. Consequentemente, é fundamental adotar políticas de adaptação e mitigação eficazes, que priorizem valores relativos à solidariedade e a dignidade humana, bem como fortaleçam os sistemas de proteção e acolhimento aos refugiados e migrantes, para além de enfrentar os desafios decorrentes das mudanças climáticas apenas na perspectiva de uma crise mundial pautada em problemas econômicos.

Racismo ambiental e as condições de vida e saúde de comunidades tradicionais como indígenas, ciganos, ribeirinhos, quilombolas e outros segmentos populacionais.

A situação social e política de populações tradicionais – como indígenas, ciganos, ribeirinhos, quilombolas e comunidades de terreiro – enfrenta crescentes obstáculos com impactos negativos nas condições de vida e saúde. Esses segmentos também podem migrar em virtude das mudanças climáticas e desastres ambientais.

O racismo impacta na vida das comunidades tradicionais afro-brasileiras de diferentes e persistentes formas, com destaque para o racismo ambiental, que afeta as formas tradicionais de viver e é geradora de problemas de saúde, ameaçando a própria sobrevivência dos indivíduos. Em comunidades quilombolas do nordeste brasileiro o impacto ambiental causado seja pelas indústrias, seja pelo agronegócio representa comprometimento ao modo de vida e saúde desses territórios. O impacto do modelo de desenvolvimento predatório, que atropela modos de vida tradicionais, é gerador de injustiças sociais e ambientais que não apenas compartilham da mesma origem, mas se retroalimentam (PACHECO,2008). Seja por descumprir legislação de proteção ambiental, seja por deliberadamente poluir territórios com resíduos ou dejetos tóxicos, o racismo ambiental representa uma grande ameaça às comunidades (CHAVIS,1993).

Nas comunidades predominantemente rurais, o impacto ambiental causado pelas indústrias ou pelo agronegócio compromete os modos de vida e saúde destes grupos. É necessário reconhecer e valorizar a importância dos modos de vida de comunidades tradicionais afro-brasileiras que têm muito a ensinar sobre ativismo e resistência, especialmente em tempos de perda de direitos sociais.

É evidente a negligência histórica e contínua por parte do Estado em relação a comunidades quilombolas como as de Ilha de Maré. A ausência de ações do poder público, seja em relação à infraestrutura, à educação ou à saúde, compromete muito a saúde dessa população. É preciso também articular a problemática ambiental com a questão racial, lançando mão do conceito de racismo ambiental para compreender que as injustiças sociais e ambientais, mesmo que não tenham um objetivo racista, frequentemente têm impacto nas condições de vida e saúde da população negra (PACHECO,2008).

É necessário também compreender a dimensão do racismo em interação com outros mecanismos de exclusão, como classe social e gênero, para compreender a vulnerabilidade social na discussão sobre os efeitos das mudanças climáticas na saúde das populações migrantes. Especialmente quando se analisa o racismo ambiental com um olhar interseccional, observa-se o impacto na vida das mulheres (Cavalcanti, 2022).

Referências

CHAVIS B. Toxic waste and race. In: Bullard RD, organizador. Confronting environmental racism: Voices from the grassroots. Boston: South End Press. 1993. p. 3-5.

IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. In: Cambridge, UK and New York, NY, USA: Cambridge University Press, 2022.

PACHECO T. Inequality, environmental injustice, and racism in Brazil: beyond the question of colour. Dev Pract 2008; 18: 713-725.  

ROCQUE, R. J. et al. Health effects of climate change: an overview of systematic reviews. BMJ Open, v. 11, n. 6, p. e046333, 9 jun. 2021.

ROMANELLO, M. et al. The 2022 report of the Lancet Countdown on health and climate change: health at the mercy of fossil fuels. The Lancet, v. 400, n. 10363, p. 1619–1654, nov. 2022.

WATTS, N. et al. Health and climate change: policy responses to protect public health. The Lancet, v. 386, n. 10006, p. 1861–1914, nov. 2015.

Publicado por Fórum de Saúde da População Negra

Formado por lideranças de movimentos sociais, pesquisadores, intelectuais e profissionais de saúde e outras áreas de atuação, é missão desse Fórum, a promoção da saúde enquanto direito constitucional, e um dos direitos básicos e fundamentais previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, com especial atenção à necessidade de resposta ao racismo e seu impacto na saúde.

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