
Ana Paula Ferreira*
O conhecimento precisa ser compartilhado, e estar próximo às necessidades das pessoas, me ensinou a entender as relações existentes entre a educação, a economia, o desenvolvimento humano, o poder público, cultura, saúde, o querer dos governantes e as demandas da sociedade. Acredito que estar na Educação, me trouxe um olhar holístico para os movimentos sociais e públicos, e conscientizar a minha prática de não aceitar a reprodução sem investigação e buscar sempre novas formas de ensino, impulsionar quem está à nossa volta para caminhar nesse objetivo, é um desafio, mas uma postura necessária.
Esse pensamento vem das inquietações, conversas e vários questionamentos sobre esta situação, provocadas nas plenárias, lives, fóruns, conversas e mais conversas oriundas diretas e indiretamente do Fórum Paulista de Saúde da População Negra. Eu integro o Fórum desde fevereiro de 2024, e falar de saúde, me fez enxergar algumas observações importantes que devem ser feitas sobre políticas públicas de saúde.
O FPSPN (Fórum Paulista de Saúde da População Negra) foi criado em julho de 2023, com o compromisso de “contribuir para a efetivação do direito da população negra à saúde, no estado de São Paulo, enfrentando o racismo, a discriminação, o preconceito, a xenofobia e as intolerâncias correlatas”.
Várias informações, conhecimentos, observações sobre o histórico de inclusão da saúde da população negra nos programas existentes no Brasil estão com dificuldades de funcionar integralmente. Entender nossos corpos, fisiologicamente, biologicamente, as reações bioquímicas, sintomas, observações sobre o que ingerimos, o que nos faz bem, o que nos faz mal, cria um autoconhecimento precioso, mas ainda não sabemos nos prevenir de doenças e ter autocuidado.
Segundo os dados sobre prevenção, a população negra tem uma desvantagem em praticamente todos os indicadores de saúde, incluindo mortalidade infantil, materna e violência. Em 2021, 53% das crianças que morreram antes de completar um ano de vida eram pretas ou pardas. As mulheres negras também têm um índice preocupante de mortes relacionadas ao momento do parto, sendo 61,6% das mortes em 2021. E a prevenção é o caminho para atingir a qualidade de vida da população negra que tanto almejamos.
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) são abordagens terapêuticas que buscam prevenir doenças, promover e recuperar a saúde. Elas se baseiam em conhecimentos tradicionais e utilizam recursos terapêuticos, como: Apiterapia, Aromaterapia, Arteterapia, Ayurveda, Biodança, Bioenergética, Constelação familiar, Cromoterapia e Reiki. Mas, a facilidade de acesso aos medicamentos, e a falta da sabedoria da cura pelas plantas, interrompe a conexão com a natureza, se perde o conhecimento das ervas, a ligação com os alimentos orgânicos, e o consumo de ultraprocessados (alimentos comestíveis, mas não são considerados alimentos) causa diversos problemas na educação alimentar e afetam toda a sociedade.
E precisamos de soluções para várias questões: como ampliar a prevenção de doenças, trazer informações verdadeiras sobre os alimentos; garantir o atendimento por profissionais sérios e formados; como combater as ofertas de anúncios criados por inteligência artificial que prometem curas, remédios que tragam soluções imediatas; como combater profissionais sem ética profissional, que prometem resultados maravilhosos com certificados falsos?
– Há políticas públicas que respaldem os direitos de crianças, jovens e adultos?
– E como anda a saúde mental e o equilíbrio emocional dos professores e alunos?
– Essa adolescente está tendo os medicamentos que precisa sem interrupções e falhas no tratamento?
– Essa falta, ocasiona problemas de concentração em sala de aula?
– Quais exercícios podem ser exercidos em sala para amenizar uma crise de ansiedade?
– Há um profissional especializado que acompanha e auxilia esse profissional em sala?
– Existem programas, projetos, disciplinas, que proporcionam momentos de reflexão e consciência sobre os impactos da saúde na educação?
– O que está sendo feito é pontual ou sistematizado?
– Crianças e responsáveis sabem que os “salgadinhos” não são considerados alimentos, e sim “processados alimentícios” (que perdemos a luta, e comemos alimentos transgênicos, que pode até avisar na embalagem, mas não sabemos quais as consequências para a nossa saúde, a longo, médio ou curto prazo)?
– O que estamos ensinando sobre preservação ambiental às nossas gerações, pois já estamos sofrendo com a falta desses ensinamentos, quando enfrentamos crimes ambientais desastrosos, nos últimos dias?
Trago esses questionamentos importantes diante dos planos de governo municipal que serão executados pós-eleições realizadas agora pouco, pois, a função de um governo seja ele municipal, estadual ou federal, é gerenciar políticas públicas que transformem positivamente a vida das pessoas. E a função dos movimentos sociais, é cobrar a realização de cada uma delas.
Aprender a identificar as pessoas que tenham propósitos sociais, no próximo ano, e que farão a diferença na vida de todos os cidadãos, principalmente paulistas, é primordial, porque saúde é coisa séria. Não podemos deixar de fazer as Conferências de Saúde, e mais necessário, fortalecer o Conselho Municipal de Saúde na nossa cidade. Mas como fazer isso? Identificando as demandas públicas, e entendendo as reais necessidades das pessoas, criando mutirões de saúde, por meio das associações de bairros, reagindo às demandas locais de cada bairro, realizando audiências públicas, fóruns populares, criando uma ponte de conhecimento entre sociedade e poder público, cobrando políticas públicas concretas e eficazes, pois, quem cuida da maioria da população, cuida do seu país.
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*Mulher preta, pedagoga, historiadora, pós-graduada em Sociologia da Educação e Cultura; articuladora social de Políticas Públicas de Equidade Racial, e integrante do Fórum Paulista de Saúde da População Negra. E-mail: febatis8@gmail.com