Transparência

A Transparência em Jogo: o desafio da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra

Thiago Araújo* 


Usar as ferramentas de controle social é algo mais que necessário para sabermos como os órgãos públicos estão trabalhando no nosso país. E entre as ferramentas de controle social, temos os conselhos de políticas públicas, audiências públicas, plataformas de participação cidadã, ouvidorias e, por último, mas não menos importante, a Lei de Acesso à Informação (LAI), e é sobre ela que falarei neste artigo. A Lei de Acesso à Informação (LAI) foi sancionada em 18 de novembro de 2011 pela presidente Dilma Rousseff e entrou em vigor em 16 de maio de 2012. A LAI é a Lei nº 12.527 e regulamenta o direito constitucional de acesso à informação pública.
          A LAI é aplicável a todos os poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Qualquer pessoa, independentemente de idade ou nacionalidade, pode solicitar informações a órgãos e entidades públicas, assim como empresas e organizações. A LAI foi criada para aumentar a transparência da atuação dos órgãos governamentais e efetivar o direito que já era garantido, mas que não tinha uma estrutura bem definida.

O meu primeiro contato com a LAI foi por curiosidade. Em 2015, participei das ocupações escolares contra o projeto de reorganização escolar, que fecharia 94 escolas de forma direta aqui no Estado de São Paulo e mais de 100 escolas de forma indireta. Felizmente, a ocupação foi uma grande vitória dos estudantes, e conseguimos derrotar a reorganização. Em 2018, estava atrás de alguns documentos da ocupação, e foi aí que tive meu primeiro contato com a LAI. Precisava, através dela, solicitar documentos à Secretaria de Educação e à Secretaria de Segurança Pública.
A LAI, como mencionado anteriormente, é aplicável a todos os poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. O que muda de um poder para outro? Geralmente, a plataforma de acesso. Mas, desde a implementação da plataforma GOV.BR, o Governo Federal vem tentando centralizar todos os pedidos em uma única plataforma, o que torna mais prático solicitar informações com base na referida lei. No entanto, isso não impede que os demais órgãos tenham seus próprios meios, sites e até formas presenciais para solicitarmos essas informações.
A LAI estabelece um prazo para resposta dessas solicitações, conforme o Art. 11: “Os órgãos públicos têm até 20 (vinte) dias para fornecer uma resposta ao pedido de acesso à informação. Esse prazo pode ser prorrogado por mais 10 (dez) dias em casos excepcionais, desde que a prorrogação seja justificada.
E atualmente, através da plataforma FALA BR, disponível no portal da transparência, além de te enviarem um email de confirmação após a sua solicitação, eles também te mostram uma data prevista para retorno. as duas vezes que utilizei esse ano, devolveram antes do prazo estabelecido, o que mostra que o Ministério da Saúde (órgão para o qual eu  fiz a solicitação) está de olho no que recebe.  Mas, apesar de terem respondido rápido, o Ministério mostra que não está disponível para responder às perguntas de forma clara, ainda mais quando questionado sobre a Política Nacional de Saúde da População Negra (PNSIPN).
No dia 31 de julho de 2024, perguntei ao Ministério: “Como o Ministério da Saúde está monitorando e avaliando a eficácia das políticas e programas de saúde direcionados à população negra?” E o que eu esperava com essa pergunta? No mínimo, um plano de trabalho ou alguma ação que aquela instituição têm realizado para o acompanhamento da implementação da PNSIPN. A resposta dada no dia 18 de agosto de 2024 foi a seguinte:


Prezado Cidadão (ã), 

Em resposta ao Pedido de Acesso à Informação, registrado na Plataforma “Fala.BR” sob o protocolo NUP nº xxxxx.042521/2024-05 – Monitoramento e avaliação de políticas e programas de saúde direcionados a população negra, com o questionamento: Como o Ministério da Saúde está monitorando e avaliando a eficácia das políticas e programas de saúde direcionados a população negra?”, a Coordenação de Atenção à Saúde da População Negra – CAPN/DEPPROS/SAPS/MS, tem a informar o que segue: A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) foi instituída a partir da portaria n° 992, de 13 de maio de 2009, com o objetivo geral de promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico-raciais, o combate ao racismo e à discriminação nas instituições e serviços do SUS, com foco na redução das iniquidades em saúde, ao reconhecer que condições de vida, processos sociais, culturais, econômicos e também o racismo ,são determinantes em saúde, a PNSIPN surge como gestora e orientadora da implementação da Política no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), com interlocução constante com as referências técnicas estaduais e das capitais, para apoio na implantação e implementação da Política. O mais atualizado estudo conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ocorreu em 2021, no qual foi realizado a Pesquisa do Perfil dos Municípios Brasileiros (MUNIC) e constatou que dentre os 5.570 municípios brasileiros, 32% (1.781) incluíram a PNSIPN nos Planos Municipais de Saúde. Isto posto, sugere-se consulta e complementação da manifestação pela Assessoria para Equidade Racial em Saúde do Gabinete da Ministra e demais Secretarias do Ministério da Saúde.”
A resposta deixa clara a falta de ações concretas, menciona o que é a PNSIPN, mas não cita sequer uma ação do Ministério da Saúde. Utiliza como referência dados de 2021, o que me leva a presumir que, desde então, nada mudou e não houve progresso ou atualização nas políticas e ações relacionadas. Além disso, desmotiva o cidadão que questiona, uma vez que, é necessário buscar informações em outras secretarias, pois, aparentemente, uma secretaria não pode esclarecer a dúvida de um cidadão conversando com as demais.
Em conclusão, a Lei de Acesso à Informação (LAI) é um passo importante para aumentar a transparência e o controle social no Brasil. No entanto, minha experiência ao solicitar informações sobre a PNSIPN trouxe à tona algumas lacunas preocupantes na forma como o Ministério da Saúde está implementando e monitorando suas ações. A resposta que recebi, em vez de esclarecer as estratégias e iniciativas em andamento, revelou uma falta de um plano de trabalho claro, além da falta de atualizações significativas dos dados desde 2021, o que não condiz com a publicação dos Boletins epidemiológicos publicados pelo Ministério recentemente, para analisar a situação de saúde da população negra no Brasil pós-Bolsonaro.

É fundamental que os órgãos públicos, especialmente aqueles responsáveis por políticas de saúde, mantenham um diálogo aberto e verdadeiro com a população. O acesso à informação deve ser uma troca, onde os cidadãos não apenas recebem dados, mas também tenham suas dúvidas respondidas de forma clara e completa. Quando as respostas são obscuras, isso pode desmotivar as pessoas e dificultar a participação da sociedade civil no acompanhamento das políticas públicas. Parece até que é proposital!

Portanto, é urgente que o Ministério da Saúde e outras instituições governamentais entendam a importância de se comprometer de verdade com a implementação da PNSIPN, e se abram para um controle social real. Só assim poderemos avançar na luta contra as desigualdades étnico-raciais e garantir que a saúde da população negra seja realmente priorizada. A participação de todos nós e o uso das ferramentas de controle social são essenciais para que possamos, juntos, exigir mudanças e construir um sistema de saúde mais justo e igualitário para todos.

Fonte:

BRASIL. Ministério da Saúde; Agência Espacial Brasileira. Lei de Acesso à Informação [18/08/2020, 14h53]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_saude_populacao_negra_3d.pdf
https://www.gov.br/acessoainformacao/pt-br/assuntos [Acesso em 19/10/2024, 23h57].

*Coordenador do Coletivo Prevenção para Todxs, e Coordenador  Executivo do Fórum Paulista de Saúde da População Negra. E-mail:

Mobilização

Diferentes organizações do movimento negro preparam-se nos vários estados da federação para o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra. Confira abaixo, algumas das atividades que acontecerão no país, em alusão à data.

RJ – Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

10 de outubro de 2024, 14h
Seminário Mobilização Pró-Saúde da População Negra Carioca: Programa Municipal de Saúde Integral da População Negra (PMSIPN – Lei 7749/2022)

Local: UERJ
Endereço: Rua São Francisco Xavier, 524, 9 andar, bloco D, auditório A da Faculdade de Serviço Social

Maiores informações: aqui, no site do evento
Instagram: @ideasjah e @comitepopnegra
Telefone: (21)99958-9948


Rio de Janeiro

Roda de Conversa com Mulheres Negras: Saúde Mental e Empreendedorismo (com Mulheres Negras Empreendedoras)
Onde: na sede do CADON – Rua Vega, 16, Andaraí
Organização: REAFRO E CADON
Mais informações:
Site: http://www.reafro.org.br
Instagram: @reafro_nacional ou @reafronacionnal
Telefone: (21)98020-6540
E-mail: daisenatividade@gmail.com


Rio de Janeiro

Roda de Conversa: Saúde Mental de Mulheres Empreendedoras (com psicólogas atuantes e Mulheres Empreendedoras atendidas pela REAFRO – RJ)
Sede do IPCN – Rua Mem de Sá, 208
Organização: REAFRO RJ E IPCN
Mais informações:
Site: http://www.reafro.org.br e http://www.ipcn.org.br
Instagram: @reafrorj e @ipcn
Telefone: 21 980206540 – Daise Rosas
E-mail: daisenatividade@gmail.com

Quatis

25 de outubro de 2024 – 18h

Ekundayó Territórios Sagrados Itinerante: A importância da autoestima para o bem-estar e o empoderamento da mulher negra
Endereço: Quatis/ RJ – Praça Matriz/Coreto
Maiores informações: @ayomide2013
Telefone: +55 24 98116-1868
Endereço: ayomidemulheresnegras@gmail.com


Rio de Janeiro – RJ

23 de novembro de 2024 – 09h
Ekundayó Territórios Sagrados Itinerante Amefricanidades: Todas as Mulheres Possíveis
Organização: Ayomidê e Casa Resistência/Centro Cultural Maraense e Favela da Maré
Maiores informações: @ayomide2013
Telefone: +55 21 99295-5744
E-mail: ayomidemulheresnegras@gmail.com

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Duque de Caxias

27 de outubro, 11h
Roda de Conversa: Saúde Mental
Organização: Maria da Conceição Cotta Baptista – Axé Kwê Cejá Gbé
Endereço: Rua G, lote 9, Quadra H. Jardim Imbariê, Duque de Caxias/RJ
Mais informações:
(21)996293923 ou nas mídias sociais de Doné Conceição d’Lissá.

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PR – Paraná

Curitiba

24 a 26 de outubro

IX Seminário Mulheres Negras e Saúde: Prevenção como Autocuidado e Longevidade
Organização: Rede Mulheres Negras – PR
Local: Hotel Estação Express
Endereço: R. João Negrão, 780 – Centro, Curitiba – PR
Mais informações:
Site: https://rmnpr.org.br/
Instagram: @redemulheresnegraspr
Facebook: https://www.facebook.com/RedeMulheresNegrasPR
Telefone: (41) 3379-1124
Necessária inscrição prévia via Google Forms

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RS – Rio Grande do Sul

Porto Alegre

26 de outubro de 2024 – 9h
Dia de Mobilização Pró Saúde da População Negra – Contribuição para uma APS antirracista
Anfiteatro da EENFS/UFRGS
Endereço: Rua São Manoel, 963 – B. Rio Branco – POA/RS.
Maiores informações:
Telefone: +55 51 9443-5264
E-mail: ayomidemulheresnegras@gmail.com

Brasília

Distrito Federal

26 e 27 de outubro (9h às 13h)
Roda de Conversa: Enfrentamento aos Racismos – Diálogos sobre Saúde e o Idadismo
Polo da AME no Itapuã – DF e Escola Zilda Arns no Itapuã – DF
Mais informações:
Site: http://www.ameequidade.org.br
Instagram: @correioame
Telefone: 55 61 991641618
E-mail: ameequidade@gmail.com

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PA – Pará

Oriximiná

Palestra: A saúde negra no centro do SUS”Cuidados com a saúde da população negra (atendimentos clínicos, ginecológicos, vacinação e odontologia).
Endereço: Lago Jarauacá – Rio Erepecuru
Mais informações: (93)99245-2505
E-mail: katarineromaoliveiraoliveira@gmail.com

SP – São Paulo

Araraquara

01 a 27 de outubro
Semana de Mobilização Pró Saúde da População Negra Saúde com equidade, um Direito de Tod@s!
01/10 – Palestra para os alunos da Faculdade de Odontologia
23/10 – Mobilização/ Panfletagem na Praça do Bairro Hortênsias
24/10 – Mobilização/Panfletagem na Praça do Bairro – Vale Verde
25/10 – Mobilização/Panfletagem na Área de Lazer do Bairro Jd. América
26/10 – Mobilização/Panfletagem nos Quiosques do Condomínio dos Oitis
27/10 – Mobilização/ Panfletagem na Praça do Bairro Quitandinha
Organização: Coordenadoria de Políticas Étnico-Raciais e Secretaria de Saúde
Mais informações: http://www.araraquara.sp.gov.br
E-mail: aclaurindo@araraquara.sp.gov.br
Telefones: (16) 997118831 ou (16) 99626-9466

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Araraquara

27 de outubro, 20 hs
Roda de conversa e práticas integrativas de saúde e bem-estar físico, mental e espiritual: Saúde da População Negra – Direito Constitucional
Organização: Mãe Sílvyá de Xangô – Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde/RENAFRO Saúde – Núcleo Araraquara
Local: Terreiro Caboclo Machu-ma, Caboclo Girador Das Matas e Pai Nago de Aruanda e Vovó Cambinda (Quilombo Urbano Acotirene)
Endereço: Rua José Rodrigues 642, Vila Xavier, Araraquara/SP.
Maiores informações: (16) 99255-4137

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Araraquara

28 de outubro, 20hs
Roda de Conversa e diálogos: Saúde da População Negra
Organização: Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde – Renafro Saúde/Núcleo-Araraquara
Endereço: Rua José Rodrigues 642, Vila Xavier, Araraquara/SP
Maiores informações: (16) 99255-4137
E-mail: negrahara2@hotmail.com

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Barretos

9 de outubro: Ação Social – UBS Marília – Aprofe/ Casa da Mulher Paulista/Odonto Unifeb

“A importância da saúde bucal na gravidez”.

12 de outubro, 11h: Galinhada Solidária – Aprofe

12 de outubro, 15h: Coquetel do Grupo Mulheres

16 de outubro, 18h: Live com Márcia Valéria

22 de outubro, 08h: Conferência dos Direitos das Mulheres/COMDIM: “Angela Davis – 80 anos”

23 de outubro, 18h: HTPC – CEFORPE – “Preconceitos Inconscientes: como ampliar a consciência com a Pretagogia”

24 de outubro, 17h: Dia Nacional de Luta pelos direitos das pessoas com Doença Falciforme/Dia de Mobilização Pró-Saúde da População Negra

29 de outubro, (de tarde): Roda de conversa sobre Conscientização Racial

6 de novembro: Vamos falar sobre racismo?
Local: Escola Almeida Pinto (manhã e tarde)

24 de novembro, 19h: Dia de Beleza
Local: Kilombo de Rosa

Maiores informações: Osni Pinheiro/Ana Paula Febatis
@osnipinheiro
Telefone: (17) 991491513
E-mail: febatis8@gmail.com

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Capital

26 de outubro, 19h30
VIII Plenária Virtual de Saúde da População Negra: em defesa do SUS, com equidade e participação popular
Organização: Fórum Paulista de Saúde da População Negra
Inscrições: articulacaospn@gmail.com

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Capital

27 de outubro, 12h00
Movimentações nas redes sociais
Publicação do vídeo “Parada Preta: Aquilombar é Cura” (registro da edição da Parada Preta LGBTQIAPN+ realizada pelo Coletivo AMEM no dia 30 de Junho/2024, com o tema “Aquilombar é Cura”).
Organização: Coletivo AMEM, sob coordenação de Flip Couto
No Instagram: @coletivoAMEM
Maiores informações:
Telefone: (11)97111-0192
E-mail: coletivoamem@gmail.com

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29 de outubro, 10h
Palestra e orientação sobre higiene bucal: principais doenças que acometem a saúde bucal da população Negra
Endereço: Rua Cordao de Sao Francisco, 119, Itaim Paulista.
Maiores informações: @saude_bucal_com_samba
Telefone: (11) 94923-7695
E-mail: maporto35@gmail.com

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Botucatu

Outubro e Novembro
Feira de Atenção e Conscientização pela Saúde da População Negra – Sua Consulta tem cor?
Organização: Projeto de Extensão da Saúde da População Negra e do Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão da Faculdade de Medicina de Botucatu, Unidades Básicas de Saúde e CRAS Oeste de Botucatu – Distrito de Rubião Júnior
Mais informações: https://www.fmb.unesp.br/#!/nupe
Instagram: @nupe.fmb
Telefone: 14997980427
E-mail: nupe.fmb@unesp.br

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Iniquidades

“VIDAS NEGRAS IMPORTAM:  Compromisso do Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão com a Saúde da População Negra”

by Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão – Faculdade de Medicina/UNESP Campus Botucatu.

As iniquidades saúde que afetam a saúde da população negra continuam multifacetadas e estruturais:

Portadores de HIV, continuam a lutar em silêncio,

Com coragem, enfrentando o preconceito,

O acesso a saúde negado, é preciso mudar,

Para que o SUS possa a todos abraçar.

Viver com a Doença Falciforme, um fardo imenso,

A dor invisível, o sofrimento presente,

Cada consulta, uma batalha travada,

Cada diagnóstico, uma esperança roubada.

Mulheres sofrem em silêncio, clamam por atenção,

E suas vozes se perdem na escuridão,

O descuido obstétrico, uma cruel certeza,

A cada passo, um risco, uma incerteza.

Que cada criança negra seja protegida,

Que cada vida seja bem-vinda e acolhida,

Que a igualdade seja mais que um sonho distante,

E que a morte gestacional não seja mais constante.

Nas ruas os futuros são interrompidos,

Jovens negros, sonhos desvanecidos,

A violência ceifa, sem piedade

É o racismo velado, brutal realidade.

A juventude negra, além da força e resistência,

Luta por vida, por paz, por existência.

É preciso erguer a voz, romper o silêncio,

Combater a injustiça, o preconceito imenso.

O racismo, tanto nas instituições quanto no atendimento médico, afeta diretamente a qualidade do cuidado prestado, gerando negligência e tratamento inadequado.

As condições socioeconômicas e a violência, especialmente a violência policial e o genocídio da juventude negra, afetam negativamente a saúde física e mental dessa população.

Que cada lágrima seja um grito de resistência,

Que cada sorriso seja um ato de coragem,

Que a vida floresça em toda sua essência,

E que o respeito seja nossa mensagem.

NUPE, setembro de 2024

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e os desafios da interseccionalidade entre racismo e crise climática no Brasil

          A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), instituída em 2009, representa um marco na luta contra as desigualdades raciais no Brasil. Reconhecendo o racismo estrutural como determinante social da saúde, a PNSIPN busca garantir a equidade no acesso e na qualidade da atenção à saúde para a população negra. 

          O 27 de outubro, Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, é marco importante na luta por equidade racial na saúde. A data, criada por movimentos sociais e profissionais da área, promove debates, atividades e ações em todo o país com o objetivo de informar a população negra sobre seus direitos, sensibilizar a sociedade sobre o racismo estrutural na saúde e cobrar políticas públicas que garantam o acesso igualitário a serviços de qualidade. 

          Nesse espírito de luta para garantir e pressionar por mais avanços nessa política, acredito que é necessário falarmos sobre a interseccionalidade entre racismo e crise climática, evidenciando os impactos desproporcionais sobre a saúde da população negra e a necessidade de uma abordagem integral e interseccional nas políticas públicas de saúde. 

           A PNSIPN conceitua o racismo como um determinante social de saúde, partindo do entendimento do caráter histórico-social do processo saúde-doença, ou seja, as contradições do sistema capitalista que geram desigualdade, afetando individual e coletivamente o acesso à saúde, o processo de adoecimento e dignidade ao viver e ao morrer. A maior contradição reside no fato da população negra compor a maioria de usuários do SUS, dentre eles muitos SUS-dependentes, ao passo que são excluídos do sistema, seja pela falta de coleta de dados como o de autoidentificação racial, seja pela falta de políticas direcionadas a conter os agravos de doenças crônicas que afetam mais essa população, como problemas cardíacos, cegueira e amputações devido a doenças como diabetes e hipertensão, descompensadas por ‘n’ fatores, dentre eles acessibilidade à alimentos saudáveis e locais adequados para atividade física, além de doenças por vetores, como esporotricose, dengue e outras doenças negligenciadas e que se proliferam por fatores socioeconômicos e ambientais. 

           Nesse cenário, a crise climática é um determinante social relevante e que deve ser pensando de forma integral com a saúde da população negra, pois os efeitos na saúde já são visíveis, 70% dos trabalhadores no mundo estão expostos a riscos de saúde relacionados às mudanças climáticas, segundo estudo da International Labour Organization.

          Em 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19 no Brasil e ano de inúmeros retrocessos na legislação ambiental, registramos a marca nacional de aumento de 70% no registro de mortes por doenças respiratórias entre pretos e pardos. Com esses dados vamos ao encontro do conceito de Racismo Ambiental, cunhado pelo ativista afroamericano Benjamin Chavis na década de 1980 e que vem se difundindo no Brasil nos últimos anos, entendendo que os efeitos da crise climática afetam mais e de forma implacável as populações marginalizadas, negros, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, entre tantos outros milhares que são responsáveis pela conservação dos nossos biomas. 

         A PNSIPN, ao reconhecer o racismo como um determinante social da saúde, representa um marco importante na luta por equidade racial no Brasil. No entanto, a efetivação de seus princípios e diretrizes exige um olhar cada vez mais aprofundado para as intersecções entre raça, classe social e meio ambiente. A crise climática, ao exacerbar as desigualdades existentes, impõe novos desafios à saúde da população negra. Nesse contexto, a promoção da saúde integral exige a adoção de políticas públicas que considerem a interseccionalidade entre esses determinantes sociais, com foco na justiça ambiental e racial. 

           É fundamental fortalecer a participação social e o controle social nas decisões sobre políticas públicas de saúde, garantindo que as necessidades e demandas da população negra sejam devidamente atendidas. Além disso, a formação de profissionais de saúde para uma abordagem intercultural e sensível às questões raciais e ambientais é essencial para a promoção da equidade em saúde.

Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico da Saúde da População Negra – Número Especial. v. 2. Brasília, DF: Ministério da Saúde, out. 2023.
BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A. A saúde e seus determinantes. Physis, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007.
INTERNATIONAL LABOUR OFFICE. Ensuring safety and health at work in a changing climate. Geneva: International Labour Office, 2024.
OBSERVATÓRIO DE CLIMA E SAÚDE. Mapas de clima e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2024. Disponível em: https://mapas.climaesaude.icict.fiocruz.br/. Acesso em: 15 set. 2024.


*Da Universidade Federal do ABC, e Membro do Fórum Paulista de Saúde da População Negra. E-mail: gercidio.valeriano@gmail.com

As eleições municipais de 2024 sem debate sobre saúde da população negra em todo o país

Do Fórum*

Com a proximidade das eleições municipais, a VII Plenária Virtual de Saúde da População Negra, realizada pelo Fórum Paulista, nesta última terça-feira, 30 de setembro, dialogou sobre a importância do Território, a territorialidade e a saúde da população negra nos planos de governo. 

Tal como nas atividades anteriores, a Plenária reuniu lideranças de diferentes estados brasileiros que atuam na área, além de pesquisadoes e profissionais de saúde. Para os participantes, é preciso ação efetiva para além do discurso, e as estratégias devem privilegiar a parceria e as alianças possíveis, entre a sociedade civil, a academia, os gestores e profissionais de saúde, considerando que saúde é mais do que a ausência de doença. É preciso, segundo as lideranças, maior articulação, incidência política, mobilização constante e colaboração efetiva, para que a gestão pública reaja ao racismo, que determina ao longo dos séculos, o acesso à bens, recursos e serviços. Nesse sentido, os planos de governo apresentados em meio ao processo eleitoral não atendem às necessidades dessa população, e apresentam entraves ideológicos para o avanço real da saúde pública no Brasil todo, avaliam.

Essa análise apresentada ao evento, é fruto da avaliação dos e das ativistas que leram os planos e demais documentos, e, em diferentes casos foram dialogar com os partidos políticos e seus candidatos, mas na maioria dos casos relatados não foram acolhidos, mesmo no campo considerado mais progressista. Os desafios inumerados pelos participantes incluem a articulação com o Ministério da Saúde, por exemplo, no campo da Atenção Primária. Rosa Anacleto, de UNEGRO, que compõe o Conselho Nacional de Saúde, participou da atividade relatando os desafios que enfreta no campo do controle social da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, implantada pelo Minsitério da Saúde em 2009, sem sucesso até dado momento. Para contribuir com esse processo, “são cinco, as organizações candidatas a compor o Conselho Nacional de Saúde no próximo pleito” segundo ela, que listou o nome das candidatas.

Maicon Nunes, do Movimento Negro Unificado – MNU compreende que “basta de diagnóstico, pois é preciso ações concretas, que alcancem de fato à população”. Para a plenária, não se trata apenas de enfrentar o racismo na saúde, mas sim, de garantir o funcionamento de todo o sistema, para além da universalidade, considerando as determinações sociais presentes na organização do país e suas instituições, o que tem se demonstrado inviável, dada ausência de resposta ao racismo na sociedade e na condução das instituições brasileiras.

A plenária ocorreu em meio aos preparativos para o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, que acontece no país desde de 2006, com a finalidade de criar possibilidades de articulação para o avanço do SUS, com participação popular e controle social, reagindo assim, ao racismo e o impacto que causa na saúde da população negra.  A data contará com os esforços de organizações da sociedade civil em diferentes estados brasileiros, entre outubro e novembro de 2024.

Assista a atividade disponível aqui na página oficial do Fórum, no Youtube.