A população negra paga, trabalha, mas não se beneficia

James Berson Lalane*

          A população negra no Brasil, além de ser a base econômica que sustenta muitos dos serviços públicos por meio de sua significativa contribuição tributária, também compõe a maior parte da força de trabalho dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, esse mesmo grupo é constantemente esquecido e negligenciado pelas políticas públicas e pelo próprio sistema que ajuda a manter. É inaceitável que, apesar de seu papel central na manutenção do SUS, a população negra continue a ser invisibilizada e marginalizada dentro de um serviço que deveria garantir a equidade e a justiça social.

          O sistema tributário brasileiro é altamente regressivo, significando que os mais pobres – entre os quais a população negra está desproporcionalmente representada – pagam mais impostos, especialmente sobre o consumo. De acordo com o estudo Tributação no Brasil e Desigualdade (IPEA, 2019), as famílias negras de baixa renda gastam, em média, 25% de sua renda com impostos indiretos, como o ICMS, que financiam diretamente o SUS e outros serviços públicos. Enquanto isso, as famílias mais ricas, majoritariamente brancas, comprometem apenas cerca de 10% de sua renda com esses mesmos tributos. Esse sistema fiscal injusto faz com que a população negra seja uma das principais financiadoras do SUS, mesmo que tenha menos renda e oportunidades do que os demais grupos. Contudo, o retorno dessa contribuição tributária não se reflete em melhorias no acesso à saúde para essa população.

          Não é apenas financeiramente que a população negra sustenta o SUS. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD, 2020), cerca de 60% dos trabalhadores da saúde no Brasil são negros. Esses profissionais estão na linha de frente do sistema, desempenhando funções vitais como técnicos de enfermagem, auxiliares de serviços gerais, agentes comunitários de saúde e equipes de limpeza. Eles são a espinha dorsal do SUS, garantindo que o sistema funcione, mesmo diante de desafios e adversidades, e ainda assim, esses trabalhadores muitas vezes enfrentam condições de trabalho precarizadas e têm acesso limitado à própria rede de saúde que ajudam a manter. Além disso, esses profissionais são frequentemente invisibilizados dentro do sistema, sendo relegados a funções subalternas e menos valorizadas, enquanto a maioria dos cargos de gestão e liderança é ocupada por pessoas brancas.

          Mesmo com essa dupla contribuição – econômica e administrativa – a população negra continua a ser negligenciada no acesso aos serviços de saúde. Dados do Ministério da Saúde revelam que as mulheres negras têm 65% mais chances de morrer durante o parto do que as mulheres brancas, e as taxas de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, são maiores entre negros.

          Essa população é também mais suscetível a doenças evitáveis, como tuberculose e sífilis, devido às desigualdades no acesso a diagnósticos e tratamentos precoces. Além disso, o racismo institucional presente no SUS agrava ainda mais essa situação. De acordo com a Fiocruz, o racismo institucional é uma das principais barreiras enfrentadas pela população negra ao tentar acessar cuidados de saúde, resultando em atendimentos de menor qualidade, tratamentos inadequados e preconceitos no atendimento.

          O cenário descrito não é acidental, mas fruto de um racismo estrutural e institucional que permeia todas as esferas da sociedade, incluindo o SUS. É urgente a implementação de políticas públicas que reconheçam a importância da população negra para o funcionamento do sistema de saúde e que garantam a essa população o direito a um atendimento digno e de qualidade. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), embora implantada em 2009, ainda não foi totalmente implementada em todos os estados e municípios do país. Sua aplicação é fundamental para garantir que as especificidades da saúde da população negra sejam levadas em consideração nas políticas de saúde, e para que essa população não seja mais negligenciada por um sistema que ela própria ajuda a sustentar.

          A população negra carrega o SUS nas costas – seja pagando mais impostos ou ocupando a linha de frente no trabalho – mas parece que o sistema sofre de uma conveniente ‘amnésia’ quando se trata de oferecer a ela o cuidado que merece. A luta pela equidade e justiça social dentro do SUS passa necessariamente pelo reconhecimento da importância da população negra para o funcionamento desse sistema e pela garantia de que essa população tenha acesso pleno aos direitos que, por justiça, lhe pertencem.

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* James Berson Lalane, sanitarista, doutorando em saúde coletiva, gerente de implementação de políticas públicas. FENAMI – Frente Nacional pela Saúde de Migrantes. E-mail: jamesberson17@gmail.com

Rumo à VII Plenária Virtual

Em meio às eleições municipais, a VII Plenária Virtual de Saúde da População Negra que acontece no fim de setembro, deve reunir lideranças do movimento negro, pesquisadores, gestores e profissionais de saúde para discutirem a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra nos municípios.

As eleições municipais de 2024 acontecem em primeiro turno no mês de outubro, em todo o país, e como sempre, é gritante a ausência de ações para enfrentamento ao racismo entre as propostas de políticas públicas para o futuro das cidades, inclusive no campo do direito à saúde, pública, universal e com equidade.

As eleições municipais são fundamentais para a organização da cidade e a garantia de direitos básicos e fundamentais no território das pessoas em toda a sua diversidade. Questões como desigualdade de gênero, raça-etnia, em meio às ações, projetos, políticas e programas devem, enfim, alimentar o debate sobre as ações governamentais que devem ser definidas e desenvolvidas com participação popular e controle social. O avanço do campo democrático nas ações programáticas são, portanto, a pauta do dia, para além das disputas políticas, econômicas e ideológicas. 

Diante disso, o Fórum Paulista de Saúde da População Negra convida as lideranças de movimentos sociais, intelectuais, gestores e profissionais de saúde ao diálogo sobre “Território, territorialidade e saúde da população negra nos Planos de Governo” em sua VII Plenária Virtual.

As inscrições devem ser feitas no link: https://bit.ly/7plenaria e a atividade acontecerá no dia 30 de setembro de 2024, às 19h30, via Zoom Meetings, com link a ser enviado aos inscritos por e-mail no dia da plenária. 

Maiores informações: articulacaospn@gmail.com 

Em defesa do SUS 

Dia 27 de Outubro é o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra. A data, criada em 2006, busca mobilizar a sociedade para o diálogo sobre demandas específicas da população negra, e a necessária promoção da equidade em saúde. 

A partir da parceria entre Criola e o Fórum Paulista de Saúde da População Negra convidamos você e sua organização a informarem abaixo, a ação que realizarão em alusão à data tão importante (seminário, roda de conversa, diálogo, panfletagem, audiência pública, exibição de documentário, etc). Queremos publicar um mapa, com o total das atividades que acontecerão no país, entre outubro de novembro, para que todos os interessados possam participar e contribuir.

Acesse https://bit.ly/diademobilizacao e registre a sua atividade!

Mudanças climáticas e seus impactos na saúde das populações

Joilda Silva Nery e Ismael Henrique da Silveira

Foto: WWF

As mudanças climáticas representam um dos principais riscos à sobrevivência de várias espécies e pode impactar a saúde e o bem-estar humano por diferentes vias (IPCC AR6WGII). São inúmeros os impactos das mudanças climáticas na saúde e incluem o aumento de inúmeras doenças infecciosas, acidentes e lesões, doenças crônicas, transtornos mentais, problemas relacionados à gravidez e ao parto, desnutrição, insegurança alimentar, violências etc. (ROCQUE et al., 2021). Esses impactos podem ocorrer diretamente ou indiretamente. Os impactos diretos são aqueles causados por eventos extremos como secas, tempestades, inundações, incêndios florestais, ondas de calor, etc. Já os impactos indiretos são mediados por sistemas naturais e humanos, e incluem aqueles relacionados às transformações ecológicas e de uso da terra, mudanças na distribuição de vetores de doenças, perdas na agricultura e plantações, deslocamentos forçados, entre outros (WATTS et al., 2015).

As mudanças climáticas, muitas vezes associadas à algo no futuro, já estão em curso e, nesse sentido os impactos citados acima já estão ocorrendo e tendem a ser exacerbados no futuro (ROMANELLO et al., 2022). Cabe ressaltar que, embora as mudanças climáticas representem uma ameaça global, pessoas em situação de vulnerabilidade têm sido as mais afetadas no presente e também serão no futuro. Nesse sentido populações de menor renda, expostas a discriminações e racismo, populações em situação de rua, migrantes e refugiados estão mais sujeitos aos impactos das mudanças climáticas, devido à falta de saneamento básico, políticas e recursos públicos de saúde, infraestrutura e refrigeração residencial etc. (IPCC, 2022).

O sexto relatório sobre mudanças climáticas do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC, 2022) destaca a crescente preocupação com os efeitos das mudanças climáticas nos movimentos populacionais, especificamente refugiados e migrantes. Segundo o relatório, as alterações ambientais decorrentes do aquecimento global estão impulsionando deslocamentos em larga escala. Estima-se que, até 2050, centenas de milhões de pessoas sejam deslocadas devido a eventos climáticos extremos, como tempestades, inundações e secas prolongadas.

A falta de acesso a recursos básicos, como água potável e alimentos, também é um fator que impulsiona as migrações forçadas. Além disso, o relatório enfatiza que as comunidades vulneráveis, como populações costeiras e comunidades rurais dependentes da agricultura, são particularmente afetadas. O aumento do nível do mar e a degradação dos ecossistemas agrícolas ameaçam a segurança alimentar e a subsistência dessas populações. Consequentemente, é fundamental adotar políticas de adaptação e mitigação eficazes, que priorizem valores relativos à solidariedade e a dignidade humana, bem como fortaleçam os sistemas de proteção e acolhimento aos refugiados e migrantes, para além de enfrentar os desafios decorrentes das mudanças climáticas apenas na perspectiva de uma crise mundial pautada em problemas econômicos.

Racismo ambiental e as condições de vida e saúde de comunidades tradicionais como indígenas, ciganos, ribeirinhos, quilombolas e outros segmentos populacionais.

A situação social e política de populações tradicionais – como indígenas, ciganos, ribeirinhos, quilombolas e comunidades de terreiro – enfrenta crescentes obstáculos com impactos negativos nas condições de vida e saúde. Esses segmentos também podem migrar em virtude das mudanças climáticas e desastres ambientais.

O racismo impacta na vida das comunidades tradicionais afro-brasileiras de diferentes e persistentes formas, com destaque para o racismo ambiental, que afeta as formas tradicionais de viver e é geradora de problemas de saúde, ameaçando a própria sobrevivência dos indivíduos. Em comunidades quilombolas do nordeste brasileiro o impacto ambiental causado seja pelas indústrias, seja pelo agronegócio representa comprometimento ao modo de vida e saúde desses territórios. O impacto do modelo de desenvolvimento predatório, que atropela modos de vida tradicionais, é gerador de injustiças sociais e ambientais que não apenas compartilham da mesma origem, mas se retroalimentam (PACHECO,2008). Seja por descumprir legislação de proteção ambiental, seja por deliberadamente poluir territórios com resíduos ou dejetos tóxicos, o racismo ambiental representa uma grande ameaça às comunidades (CHAVIS,1993).

Nas comunidades predominantemente rurais, o impacto ambiental causado pelas indústrias ou pelo agronegócio compromete os modos de vida e saúde destes grupos. É necessário reconhecer e valorizar a importância dos modos de vida de comunidades tradicionais afro-brasileiras que têm muito a ensinar sobre ativismo e resistência, especialmente em tempos de perda de direitos sociais.

É evidente a negligência histórica e contínua por parte do Estado em relação a comunidades quilombolas como as de Ilha de Maré. A ausência de ações do poder público, seja em relação à infraestrutura, à educação ou à saúde, compromete muito a saúde dessa população. É preciso também articular a problemática ambiental com a questão racial, lançando mão do conceito de racismo ambiental para compreender que as injustiças sociais e ambientais, mesmo que não tenham um objetivo racista, frequentemente têm impacto nas condições de vida e saúde da população negra (PACHECO,2008).

É necessário também compreender a dimensão do racismo em interação com outros mecanismos de exclusão, como classe social e gênero, para compreender a vulnerabilidade social na discussão sobre os efeitos das mudanças climáticas na saúde das populações migrantes. Especialmente quando se analisa o racismo ambiental com um olhar interseccional, observa-se o impacto na vida das mulheres (Cavalcanti, 2022).

Referências

CHAVIS B. Toxic waste and race. In: Bullard RD, organizador. Confronting environmental racism: Voices from the grassroots. Boston: South End Press. 1993. p. 3-5.

IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. In: Cambridge, UK and New York, NY, USA: Cambridge University Press, 2022.

PACHECO T. Inequality, environmental injustice, and racism in Brazil: beyond the question of colour. Dev Pract 2008; 18: 713-725.  

ROCQUE, R. J. et al. Health effects of climate change: an overview of systematic reviews. BMJ Open, v. 11, n. 6, p. e046333, 9 jun. 2021.

ROMANELLO, M. et al. The 2022 report of the Lancet Countdown on health and climate change: health at the mercy of fossil fuels. The Lancet, v. 400, n. 10363, p. 1619–1654, nov. 2022.

WATTS, N. et al. Health and climate change: policy responses to protect public health. The Lancet, v. 386, n. 10006, p. 1861–1914, nov. 2015.

Um olhar sobre a visita da Relatora da ONU

César Gomes*

Em 1993 foi criada a Relatoria Especial Sobre o Racismo, da Organização das nações Unidas – ONU, com atribuição de focar sobre as formas contemporâneas de racismo, visando combater manifestações racistas, antisemitismo, xenofobia e outras intolerâncias corretas. A Convenção Internacional para Eliminação da Discriminação (CERD), é que vai dar as diretrizes para esta atuação.’

          “Qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional/étnica que tenha o propósito ou efeito de anular ou prejudicar o reconhecimento, o gozo ou o exercício, em igualdade de condições, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro da vida pública”.

          Sob esta ótica a Declaração e Plano de Ação de Durban classifica as vítimas de racismo nos seguintes seguimentos: pessoas negras, migrantes e refugiadas, árabes e mulçumanos, outras minorias raciais como ciganas/romani e povos indígenas.

          A Relatora ou Relator, tem que ser convidada pelo país para então realizar uma visita. Uma vez concedida a visita o/a relator/a, na visita, irá colher informações e avaliações acerca do contexto nacional específico naquela localidade, com as quais resultará num Relatório com análise e recomendações ao Estado visitado a fim de conter as práticas de racismo.

          Estas visitas que resultam em um produto, o Relatório, tem muita relevância porque dá luz a situações graves e urgentes de violações de direitos no país visitado. Em casos extremos de violações, o país poderá ser penalizado pela Corte Interamericana. No caso do Brasil, por 13 vezes já foi notificado por esta Corte.

          Recentemente, em 10 de agosto de 2024, tivemos na cidade de São Paulo, a visita da Relatora da ONU, Sra. Ashwini K. P. Ela também, esteve visitando as cidades de Salvador, São Luís e Brasília com encontros distintos, locais, com a sociedade civil e agentes governamentais.

          Na reunião da sociedade civil com a Relatora Especial das Nações Unidas – ONU , sobre as formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, Sra Ashwini K. P., estiveram presentes representantes de vários seguimentos da população negra: população em situação, usuários de crack,  GreenPeace, Vale do Ribeira (Ribeirinhas, Quilombolas e Impacto Ambiental), Rede de Mulheres Negras, Rede de Negras e Negros LGBT, Imigrantes, Juventude Negras, entre outras, totalizando 30 pessoas convidadas. O Objetivo foi de que a sociedade civil presente à reunião, pudesse contribuir na elaboração de recomendações ao Estado Brasileiro no enfrentamento ao racismo sistêmico e todas as formas de discriminação.

A Relatora irá construir um anal desta visita com proposto de que estas recomendações façam parte de um relatório público a ser apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em junho de 2025, e, por conseguinte, compartilhadas numa conferência de imprensa. Os Eixos Temáticos foram assim distribuídos:

  • RACISMO AMBIENTAL
  • RACISMO E GÊNERO
  • RACISMO E PESSOAS MIGRANTES E REFUGIADAS
  • RACISMO E POLÍTICA DE DROGAS
  • RACISMO E POVOS ÍNDIGENAS
  • RACISMO E CAPACITISMO
  • RACISMO E POPULAÇÃO NEGRA
  • RACISMO E POPULAÇÃO LGBTI+
  • RACISMO E TRABALHO
  • RACISMO E RELIGIÃO
  • COMUNIDADE ROMANI (CIGANOS)

          A Sra. Ashwini, perguntou se houve ou há diálogo com o novo governo federal? Foi lhe dito que sim, porém, vive se uma relação muito limitada por conta de que a oposição é muito forte na câmara e no congresso. A bancado do Boi e a bancada evangélica, muito ligada ao Ex-Presidente Bolsonaro, têm, em certa medida, contribuído para manutenção de algumas formas de racismo. As anotações que seguem, são recortes de falas dos seguimentos da sociedade civil:

  • Brasil atingiu a marca de 63% de vítimas de feminicídio de mulheres negras.
  • Há um pré-natal inadequado quando para mulheres negras; o SUS é importante enquanto sistema de saúde, porém, não garante atendimento adequado. Programas existem, mas não há programas para facilitar o acesso aos serviços correspondentes.
  • Dados ressaltas a necessidade de uma Reforma na Justiça Reprodutiva.
  • Pesquisa apontam que a mortalidade em relação a gestação e parto, diminuiu entre as mulheres brancas e aumentou entre as mulheres negras.
  • Os hospitais de referência de maternidade estão todos localizados na área central das cidades deixando a periferia desassistida.
  • Urge que nas escolas de enfermagem tenham em seus quadros de ensino, dados específicos sobre a saúde da população negra, como por exemplo a pressão arterial que não é levada em conta e é um dos principais fatores de óbito no parto de mulheres negras.
  • Qual tem sido, do ponto de vista da prática, o impacto da resposta institucional aos casos de violações de direito, relacionados aos casos de saúde no Brasil?
  • Vivemos uma abolição inclusa onde o negro não é incluso de forma quantitativa.
  • Raça, gênero e classe, esse tríplice discriminação coloca as mulheres negras na base da pirâmide de violências contra mulheres.
  • É de responsabilidade do governo que as políticas cheguem nas periferias com qualidade no atendimento, tratamento e acolhimento integral.
  • Fazemos a recomendação para que o Brasil reconheça o racismo ambiental.
  • A educação climática fica sempre em segundo plano sendo moeda de troca com o mercado imobiliário, fábrica e indústrias, ramo agropecuário e mineradoras; por muitas vezes instituições privadas ocupam esta pauta esvaziada pelo governo.
  • Brasil, vai sediar a COP 30. 
  • Como parar a exploração de minérios na região do Vale do Ribeira? Há 129 pedido de exploração no local tramitando no governo. Uma exploradora portuguesa fechou as portas, mas deixou toneladas de chumbo a céu aberto, causando contaminação do solo, mortes por causas de inflamação no trato respiratório, sendo que as autoridades competentes estão inertes as vidas que ali habitam: ribeirinhas, pescadores, quilombolas.
  • Negros excluídos no jogo político social, nunca convidados para sentar a mesa de discussão.
  • Entre 2020 e 2022 houve uma redução de 60% nos casos de letalidade policial devido ao uso de câmaras nas fardas, no entanto, o novo governo estadual não promove o uso e, se o faz é num sistema que permite o policial desligar durante uma abordagem.
  • Uma grande parcela de agressões e violações de direitos da População Negra é cometida pela Segurança Pública (Polícia Militar e Guarda Municipal). Entendemos que estes agentes de segurança pública estão à serviço, cumprindo ordens de superiores. Que ferramentas a ONU pode dispor no intuito de recomendar a penalização também das altas patentes que dão as ordens para seus subordinados? Historicamente, a corporação diz que o/os subordinado foram retirados das ruas e postos em serviços internos, do qual nem sabemos se trata de uma verdade, e nada é atribuído ao mandante.
  • Há relatos de que a partir de 2014, policiais estariam recebendo uma porcentagem para encarcerar usuários de crack. A higienização social ocorre sob o pretexto de revitalização da área central, como por exemplo o projeto do governador em trazer para a região do Campos Elíseos o setor administrativo do governo, quando na verdade é mais para favorecer o setor imobiliário.
  • A situação em que se encontra a comunidade negra no Brasil, tem que ser mostrada ao mundo para decretar por vez a pseudo “democracia racial e social”.
  • Inclusive a Inteligência Artificial tem sido usada para prática de racismo.
  • Capacitismo: não dados de pesquisas sobre pessoas negras PcD.
  • É preciso pressionar o governo para buscar estes dados qualitativos: onde estão e como estão esta parcela da população?
  • O governo, em muitos casos é o responsável por produzir algumas deficiência que acometem a população. Por exemplo na violência obstetra ou equipamentos inadequados ou mesmo a falta deles.
  • A 500 anos lutamos e resistimos contra a reprodução análoga a escravidão nas fazendas, lavouras, indústrias têxtil, serviços domésticos, vinícolas e mineradoras, entre outros meios.
  • As políticas públicas não são estruturadas com base na relação em raça e gênero.
  • O Brasil, ocupa o 11º lugar no ranking de países que ainda utilizam de expedientes análogo a escravidão.
  • Pesquisa mostram que 61% de homens negros morrem até 69 anos, numa amostragem bem superior ao homem branco.
  • O fundamentalismo religioso adentrando o campo da política tem a missão de eliminar os negros socialmente.
  • Não dá para agir com um “jeitinho” do professor ou outros aliados a causa, o governo tem que fazer efetivar as políticas públicas de fato.
  • O movimento negro dá nome as violações e com isso vai disputar lugar, mesmo desigualdade de armas, um lugar na e com a sociedade. É preciso uma adequação na legislação.
  • Tanto o Ministério do Trabalho, sindicatos e outras estâncias públicas promovem a punição seletiva; nenhum explorador está ou foi preso. Por exemplo o sistema judiciaria, vergonhosamente, estabelece uma sentença de R$ 20.000,00 de multa para uma mala extraviada ao passo que R$ 2.000,00 para o sujeito escravizador.
  • Podemos ainda citar o caso da “Sônia”, que foi escravizada durante muitas décadas como doméstica em casa de um juiz, pelo corporativismo desleal e desumano de um comparsa, a sentença determinou que “Sônia” deveria continuar como doméstica na casa do juiz porque ela não tinha condições natural da fala.
  • No Brasil, ultimamente vimos acontecer casos de denúncia de agressão e racismo, sofridas por pessoas negras, reverter em acusações de difamação e calunia, e ter que pagar indenização pela sua denúncia. Como, por exemplo o caso do jornalista Luan Araújo. Essa prática de alguns magistrados, pode causar o abalo da legitima confiança no sistema de leis contra o racismo, desencorajando as vítimas de fazê-lo?
  • As religiões de matriz africana são as principais áreas territoriais de manutenção da cultura afro.
  • O estado precisa reconhecer nestes territórios a importância que possuem na estrutura linguística e musical na formação cultural deste país, assim sendo, reconhecer estes territórios como patrimônio imaterial nacional.
  • Outro dado a ser observado é a laicidade do Estado. O Governo assina convênios com algumas instituições religiosas de cunho cristão/evangélico e nega a mesma prática com casas de matrizes africanas.
  • Porque não há a criação de uma relatoria formativa, com capacitações para a sociedade civil, que ajudem a integrar papéis de resolução como agente de Estado, ao invés de informativo?
  • Qual é a incidência política do sistema ONU sobre o Brasil atual, e porque a gente não consegue sentir essa importância na prática, aqui no chão de fábrica?
  • Como a ONU pretende alterar sua atuação diante da emergência imposta pelos inúmeros casos de racismo vivenciados no Brasil?

          Depois de 500 anos de história do continente africano escravizado nas Américas, não cabe mais definir o racismo apenas pela cor da pele, a globalização promoveu o colorismo.

          Considerando as experiências do outro, somatizando atitudes comportamentais conscientes, humanas, há de impactar na promoção da inclusão e igualdade em vários ambientes, como do trabalho.

          A história Africana, não começou a 500 anos com a escravidão, mas sim, junto à história da humanidade, inclusive, e está cientificamente comprovado que o homem surgiu na região dos Lagos, por conseguinte o movimento da negritude surge dentro do panafricanismo, sendo que o homem branco cria o racismo quando idealiza a supremacia racial.

          A forçosa ideia de que África não tem história faz parte do nefasto plano da branquitude para justificar a escravidão pelo imperialismo ocidental, negando a rica participação africana no processo civilizatório da humanidade.

          África é o berço da humanidade? Sim! Mas, também é o berço da escrita, da arte, da espiritualidade, da religiosidade, da ciência, e, comprovadamente, os grandes filósofos gregos, romanos beberam se formaram na fonte da educação africana.

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*Rede Afro LGBT, e Fórum Paulista da Saúde da População Negra. E-mail: cesarmacego@gmail.com;